Ansiedade: aceitação, um passo tão difícil, mas curativo
A verdadeira mudança costuma começar quando paramos de lutar contra o que sentimos e aprendemos a dar-lhe espaço. Descubra por que a aceitação é o ponto de partida na terapia para a ansiedade e a depressão.
Aceitar para curar
Há uma ideia que se repete em muitas conversas sobre saúde mental: a de que sarar ou recuperar significa deixar de sentir ansiedade, tristeza ou medo. É perfeitamente natural pensar assim, afinal de contas, ninguém quer sentir desconforto. No entanto, quem trabalha diariamente em consulta com pessoas em sofrimento sabe que a realidade é diferente: a verdadeira mudança costuma começar precisamente quando paramos de lutar contra o que sentimos e aprendemos, primeiro, a dar-lhes espaço. A ansiedade e a depressão continuam a ser dois dos motivos mais frequentes para se procurar apoio psicológico. Embora sejam experiências distintas, partilham um ponto crucial: grande parte do sofrimento não vem apenas do sintoma em si, mas do esforço exaustivo e constante para o evitar ou controlar. É sobre este ponto que vale a pena refletir: por que razão a aceitação é, em terapia, o grande ponto de partida e por que motivo isso não tem absolutamente nada a ver com desistir. Afinal, o que quer dizer "aceitar"?
Quanto mais resistimos, mais o sofrimento cresce
É muito fácil confundir aceitação com resignação, como se aceitar significasse conformar-se, baixar os braços ou deixar de acreditar que a vida pode melhorar. Em psicoterapia, o sentido é bastante diferente. Aceitar não é gostar do que se sente, nem fingir que está tudo bem. É a capacidade de reconhecer um pensamento, uma emoção ou uma sensação física assim que ela surge, sem entrar imediatamente numa batalha para a apagar ou reprimir. Trata-se de uma postura ativa, porventura a decisão mais consciente de todo o processo — e não de uma rendição. Em vez de gastarmos a nossa energia a combater o que sentimos, aprendemos a direcioná-la para aquilo que, de facto, está ao nosso alcance transformar.
Aceitar não é o mesmo que ficar parado
Experimente fazer um pequeno teste: durante um minuto, tente não pensar numa determinada palavra. Por exemplo, não pense em "laranja". É muito provável que a imagem ou a palavra surja na sua mente com mais força do que se ninguém lhe tivesse pedido nada. Com o mundo emocional acontece exatamente o mesmo. Na psicologia, este fenómeno é conhecido como Esquiva Experiencial: quanto mais tentamos fugir de uma emoção desconfortável, mais presença ela ganha. Muitas vezes, não sofremos apenas pelo sintoma inicial, mas sobretudo pela luta diária que travamos contra ele. A aceitação serve precisamente para interromper esse ciclo de desgaste. Na ansiedade, o corpo entra em modo de alarme, preparando-se para responder a uma ameaça. O problema surge quando esse alarme se mantém ligado sem necessidade, surgindo as palpitações, a tensão muscular ou aquela sensação permanente de estar "à espera do pior". Quanto mais tentamos eliminar estas sensações à força, mais o cérebro interpreta que estamos perante um perigo real. Lembre-se: sentir ansiedade não significa que esteja, de facto, em perigo. Na depressão, pensamentos como "não sou capaz" ou "isto nunca vai melhorar" surgem com uma força que os faz parecer verdades absolutas. Mas não são. Reconhecer que está a passar por um período difícil não significa que vá ficar assim para sempre. Como dizemos frequentemente em consulta: um pensamento é apenas um pensamento, não é um facto. Este é talvez o mal-entendido mais comum sobre a aceitação terapêutica: pensar que aceitar é sinónimo de passividade. Não é. Aceitar não significa deixar de procurar soluções, significa deixar de desperdiçar energia numa luta que não leva a lado nenhum, para poder usá-la naquilo que realmente é possível transformar. Na prática, pode ser tão simples como dizer para si próprio: "Neste momento, estou ansioso", e logo a seguir perguntar: "O que posso fazer agora para cuidar de mim?"
Exercício prático: o primeiro passo
Da próxima vez que sentir ansiedade ou tristeza a instalar-se, experimente estes três passos: 1. Identificar. Diga, mesmo que em silêncio: "estou a sentir ansiedade" ou "estou a sentir-me triste" — em vez de "sou uma pessoa ansiosa". A diferença parece pequena, mas separa o que sente do que é. 2. Localizar. Onde é que essa emoção se instala no corpo? O peito aperta? Os ombros ficam tensos? Há um nó no estômago? Dar-lhe um lugar concreto ajuda a torná-la menos avassaladora. 3. Permitir, sem julgar. Reconheça, sem se criticar por isso: "Esta é a minha realidade agora. Não preciso de resolver tudo neste preciso momento."
O papel da psicoterapia neste caminho
Aprender a aceitar o que sentimos raramente acontece de um dia para o outro, e não tem de fazer esse percurso sozinho(a). A psicoterapia oferece um espaço seguro, empático e confidencial para olhar para os seus padrões emocionais e desenvolver, ao seu ritmo, estratégias mais adaptativas. Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), por exemplo, trabalha-se a identificação dos pensamentos automáticos que mantêm o sofrimento, integrando abordagens como: - Regulação emocional e aceitação - Ativação comportamental - Mindfulness - Reestruturação de padrões de pensamento O objetivo de um processo terapêutico não é apagar as emoções difíceis — até porque elas fazem parte da condição humana. O objetivo é adquirir recursos para lidar com elas de forma mais flexível, sem que assumam o controlo da sua vida.
Pedir ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza
Ainda existe o preconceito de que devemos conseguir superar tudo sozinhos. Procurar apoio psicológico não é um sinal de fraqueza; é, pelo contrário, um gesto profundo de autocuidado e de responsabilidade com a sua saúde. Quanto mais cedo decidir olhar para o que sente, maior será a probabilidade de devolver o equilíbrio à sua rotina. A aceitação pode não fazer a dor desaparecer de imediato, mas permite-lhe parar de lutar contra si próprio/a. E é quase sempre nesse espaço de calma que a verdadeira mudança começa.
Dê o primeiro passo
Se a ansiedade, a tristeza ou outros sintomas têm vindo a interferir na sua rotina, não é preciso esperar que a situação se torne insustentável para pedir ajuda. Marcar uma consulta de avaliação pode ser, simplesmente, o início de cuidar melhor de si.