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Trauma

A Inteligência Artificial pode ajudar no processo de recuperação após um trauma?

A IA pode oferecer conforto imediato, mas a recuperação de um trauma depende de presença, olhar clínico e uma relação terapêutica segura. Saiba onde a tecnologia pode — e não pode — ajudar.

A Inteligência Artificial pode ajudar no processo de recuperação após um trauma?

Trauma: a procura por respostas rápidas

Trauma: a procura por respostas rápidas

A evolução da inteligência artificial vem acompanhada de um maior e mais frequente uso da mesma por parte dos utilizadores, todos com diferentes propósitos. Um dos usos que têm vindo a ser cada vez mais frequente, é o uso da IA para apoio psicológico. Tendo isso em conta, devemos refletir sobre uma questão muito importante: "será que a IA pode ajudar no processo de recuperação psicológica após um trauma?" Para podermos explorar essa questão, temos de entender o conceito de trauma: o trauma é uma resposta que surge de uma experiência (direta ou indireta) que vai além dos recursos de adaptação e regulação do nosso corpo, podendo causar desorganização emocional e a perda da sensação de segurança. Depois de passar por uma experiência traumática, o corpo procura naturalmente encontrar, de imediato, a sensação de "previsibilidade" e de segurança. É por esta razão que muitas pessoas acabam por recorrer à internet e aos chatbots de IA: na tentativa de obter algum conforto ou respostas rápidas sobre o que estão a sentir, aproveitando a acessibilidade, o anonimato e evitando o estigma que infelizmente ainda existe em relação à consulta de psicologia.

Empatia simulada versus presença real

Empatia simulada versus presença real

A inteligência artificial, neste momento, já evoluiu a um ponto em que consegue simular empatia e fornecer estratégias (genéricas) para lidar com o que estamos a sentir. No entanto, esta não tem uma presença física e visível, nem capacidade para perceber ou sentir o estado mental do outro — características fundamentais num profissional de saúde mental. Além disso, um aspeto importante a ter em conta é a fiabilidade da informação que a IA transmite. Apesar de haver cada vez menos desinformação a circular nos chats de IA, devemos ter sempre cuidado em perceber se a informação transmitida é real ou se já está desatualizada (outdated). Neste caso, a melhor fonte de informação será um profissional de saúde mental, que além de ter experiência profissional, dedica-se todos os dias a manter-se atualizado, através de fontes científicas, para proporcionar o melhor atendimento possível aos seus clientes.

A importância de ler o estado emocional

A importância de ler o estado emocional

Outro aspeto a considerar é a incapacidade que a IA tem de avaliar o estado de ativação emocional do outro. Existem sinais de desregulação que só podem ser detetados visualmente: se a pessoa estiver num estado de dissociação e a IA sugerir uma análise das memórias, isso pode desencadear efeitos negativos no seu corpo e na sua mente. Ainda, a IA é conhecida pela sua positividade, pois os chatbots são programados para serem excessivamente otimistas e orientarem a pessoa para soluções rápidas. A pessoa pode interpretar isso como "a minha dor tem de ser corrigida rapidamente", o que pode impedir a integração das emoções e o processamento adequado dos eventos ocorridos. Em suma, é precisamente para tentar minimizar ao máximo os efeitos negativos que o trauma pode ter que a relação terapêutica é tão importante. É através dela que o psicólogo vai poder detetar sinais visíveis de que a pessoa está desregulada ou ativada emocionalmente, e reorganizar o processo terapêutico em função disso. É também fundamental referir que, muitas vezes, as experiências traumáticas acontecem em contexto relacional, quebrando a confiança das pessoas em relação aos outros. É aqui que o estabelecimento de uma relação terapêutica estável, segura e de confiança ajudará a pessoa a perceber que nem todas as relações são negativas, evitando que entre num ciclo de visão negativa para com o resto do mundo e sem generalizar.

Um primeiro passo — mas não substituto

Um primeiro passo — mas não substituto

De um modo geral: a inteligência artificial pode por si só ajudar no processo de recuperação após um trauma? A resposta simples é não, para um processo de recuperação psicológica, o mais adequado será contactar um profissional qualificado, para um atendimento personalizado e adaptado às necessidades específicas de cada um, algo que a IA não consegue cumprir. No entanto, para situações de crise aguda em que a tendência é recorrer à IA, existem também linhas de apoio, com contacto humano que podem ajudar.